Aulas e Zombarias parte 2
A turma começou a gargalhar histericamente. Todos já estavam rindo e cochichando baixo no começo da leitura do aluno novo José Carlos Severino Pinto.
Zeca era o tipo esquisitão da turma: paraibano, baixo, feio, inteligente e calado. O tipo de pessoa que você ignora ou não prestaria atenção, por ele não estar tentando compra-lhe com discursos consumistas ou materialismo disfarçado com peles de romance. Era um portador de mensagens corrosivas, ávido para atacar e começar sua jyhad contra a falsidade social, mas na maioria do tempo era um transgressor silente do estático complexo de bem-estar. Através de suas notas pessoais cheias de rabiscos e caricaturas de todos que odiava, seria possível obter um contundente dossiê de denuncia e revolta. Naquele episódio surpreendera todos na sala quando esqueceu o nome do medo para ler seus posicionamentos cheios de sotaque sobre a história de seu país em tom sério e sem cortes.
Seu lar desfeito e pobre tinha criado silêncio ermo no seu âmago, mas, o efeito colateral era evidente naquele momento: todo tempo livre que tinha, esteve lendo, escrevendo, assimilando e correlacionando coisas aleatórias na caxola. Como lia de tudo, prometeu que escreveria de tudo também o mais rápido possível. Falaria de rapadura com mofo e do Raio de Schwarzschild num mesmo discurso.
Quando fugiu para o Rio de Janeiro, numa madrugada qualquer dentro das cargas de um caminhão, quase foi violentamente censurado pelo dono do veículo quando descoberto. Por fim sua inteligência e lábia conquistaram o caminhoneiro solitário.
Ele tornou-se seu ajudante e depois de um acordo escuso uma diretoria de escola pública conseguiu uma matrícula falsa num brisolão e num novo endereço. Havia uma estranha harmonia simples entre os dois. Ele cuidava da casa e se virava com uma grana enquanto o seu novo amigo ia ser explorado pelas empresas pagam frete pelo Brasil e nas férias viajavam juntos.
Como uma estátua de expressão neutra e distante lá estava ele. O professor de história que havia feito o pedido para aquele texto estava mudo e absorto, tentando, até então sem nenhum êxito, conceber aquela cena atípica numa sala de aula. Quando fez um sinal para o menino se sentar, ouviu, após o consentimento do rapaz, mais algumas palavras de indagação agora, em decibéis de grito adolescente, no meio do percurso:
-Ei, eu quero uma resposta. De qualquer um de vocês... Como fica ESSA PORRA que eu joguei na cara de vocês?
Infelizmente além de toda a turma e do professor, alguém da coordenação ouviu a mesma pergunta e não gostou muito do silêncio posterior. O tumulto foi resolvido com uma suspensão do aluno José Carlos. Seu responsável seria, em vão, notificado e muito daquele ocorrido seria esquecido com exceção, é claro, do nome do aluno.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
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