terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sonhos e Zombarias

Cicatrizes da Cidade (sonhos de uma turba moribunda. E por falar em bunda...)

É madrugada. São quatro e quinze precisamente, e nos limiares subconscientes de seus sonhos, Zeca aventura-se entre brumas umbrais de memórias de todo mundo até que uma personagem surreal interrompe a continuidade de sua busca consurgindo com as próprias sombras oníricas.
Quimérica e familiar ela se apresenta:Eu sou um de teus reflexos. Meu nome é Dia-a-Dia...
Ouvem-se outras vozes ao fundo e de repente todo cenário configura-se em uma esquina da Avenida Rio Branco na hora de maior movimento...
Zeca alterna seus sentidos ora como alguém incorpóreo ora como alguém plenamente capaz de sofrer com o calor da rua. É como um doloroso processo de transmigração acontecesse dentro de um acelerador de partículas...
À sua frente, aquele que antes era quimérico, agora parece seu irmão gêmeo de carne e ossos.Assim, ele começa a falar profusamente em seguida:

Tocante! Penetrante! Delirante!
O concreto e a fumaça em farelos de evolução e suspiros de abandono. Mentes cinzas e conceitos terceirizados com valores em conta. A propósito, já fez suas contas de fim de mês senhor zombeteiro? Repare seu conta-gotas de otimismo e compare com as gotas de sangue engordurado e venoso que passeiam pelas ruas como meninas de dezessete anos. Que divertida monotonia ouvi-las cantando em uníssono o réquiem da ética com as fábricas e empresas dando oportunidades para tornar esse cenário sinfônico mais abnóxio.
As engrenagens não se calam enquanto a multidão dorme. Máquinas e sacos de carne e espírito amontoados com etiquetas escritas “consumo irresponsável de migalhas do conveniente amanhã que não vem”. Que promessa curta é o Amanhã não é mesmo? Conhecemos bem a distorção dessa promessa não cumprida. Eu faço questão de invocá-la através da leitura dos breviários necromantes dessa ocasião. Esse grito abafado dos paradoxos esquecidos transborda como bolhas de catarro de um bueiro entupido enquanto você sonha com seu fim de semana praieiro na região dos lagos.
Quero lembrá-lo que o creme de vasenila de gentileza sintética usado para tratar de seus paradigmas está se acabando. O múltiplo colapso dá passos largos em todas as direções com disforme semblante que ignora sua ignorância. Sabemos que pesadelos não precisam de um rosto definido e ao encontrá-los você irá tossir o ar pobre do consenso para fora de seus cancerosos pulmões. Provavelmente para acompanhar essa seqüência, suas veias saltarão com espirros alérgicos à verdade dita.
Mens sana in corpore sano... Só na televisão global você sabe... Sabe não... Mas assiste não é mesmo? Na verdade tem muita infecção debaixo dessas feridas. Cicatrizes da cidade e sonhos de uma turba moribunda confabulando seus desperdícios ideológicos. A mesma turba que tem aulas de história falida e forjada. A mesma tuba repetida que carrega você no colo com carinhos paliativos todos os dias, para fazê-lo esquecer suas próprias aspirações de bem estar e dopar sua abnegação latente de boa coletividade.
Você conhece bem o coquetel: seringas de morfina moral, viagras de sociabilidade e um arrojado folclore moderno de zumbis para ludibriar seu conceito de liberdade individual.
Estamos mesmo em maus lençóis e ainda, quando acordados, a mais sincera realidade consensual parece estar mentindo através de sussurros de uma verdade multifacetada.

Zeca abre os olhos com um zumbido nos tímpanos e uma terrível sensação de realidade pálida, como uma sacanagem de Hipnos e Thanatos trabalhando juntos. Ele não saberia dizer se está acordado. Seu suor escorre pela testa enquanto lembra-se com detalhes da sua última aula de história. Ainda são quatro e quinze e certamente seria melhor ficar na cama por mais um tempo mas, é impossível continuar sonhando...

2 comentários:

Peri disse...

Está perfeito. Sei das limitações de tempo que a redição de texto requer, mas o tema em si é completo. Como sempre o atributo divino da cria(crea)ção não escapou dentre os dedos.

Antes de comentar o texto, aconselho ler de novo, ou esqueça-o e volte a sonhar seu sonho melado de vaselina.

Rodrigo Guedes disse...

Perturbadoramente familiar...

Adivinhe só quem está contando...